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Novo lar, novo começo para o Jacó

O seu nome é Jacó! De orelhas em pé, curioso, mas tranquilo, passeia-se pelo lameiro de final de Inverno no Centro de Acolhimento do Burro (CAB), aldeia de Pena Branca, em Miranda do Douro. O que fará este burro jovem, com apenas seis anos, neste lugar, onde a maioria dos seus companheiros burros tem uma idade avançada?
A viagem do Jacó começou com um telefonema em janeiro de 2026, um alerta recebido pela médica veterinária Liliana Pinto, da Câmara Municipal de Mirandela, de que havia um burrinho em más condições. Este aviso de uma vizinha foi encaminhado para a GNR, e, seguindo os trâmites legais, foi feita uma visita ao local pouco tempo depois. Preso a uma árvore por uma corda, como se fosse uma trela, sem água nem abrigo, rodeado por lama e visivelmente magro e fraco: assim encontraram o Jacó. Comida existia, vários baldes de ração de vaca estavam perto dele, mas não era a mais adequada, já que um burro necessita de pastar e de comer, maioritariamente, alimento seco, como palha e feno.
Falaram com a dona, que por desconhecimento, achava que o burro estava em boas condições. Tudo o que fez foi com boa intenção. Tinha acolhido o Jacó há mais de dois anos, porque ele estava ao abrigo de pessoas que o maltratavam, e ela achou que o poderia ajudar. Ela tinha duas vacas, e um burro pela primeira vez. Um dia, encontrou as vacas envenenadas por alguém maldoso. O Jacó estava ferido, provavelmente por ter tentado defendê-las, não fosse ele burro, animal fiel e protetor da família! Desde então, ficou mais receoso dos humanos, a sua relação com a dona mudou e tornaram-se mais distantes.
O passo seguinte foi soltar o Jacó da corda, que mal se apercebeu, correu para pastar. Um abrigo perto foi também disponibilizado, para que ficasse mais resguardado da chuva e do frio. A veterinária Liliana explicou à dona que a forma como o burro estava a ser mantido não era a mais adequada, sensibilizando-a para as mudanças necessárias para garantir o bem-estar do Jacó. Contudo, seriam encargos difíceis de suportar, já que as possibilidades financeiras dificultavam algumas questões, como a aquisição de fardos. Colocou-se então a hipótese do Jacó ser encaminhado para o CAB, contactando a AEPGA. A dona aceitou, compreensiva, pois sabia ser o melhor destino para o burrinho.
No dia da partida, o coração apertou. Separar-se de um amigo, mesmo que seja para o seu bem, é sempre doloroso. As lágrimas que correram pelo rosto da dona detiveram-na a meio do caminho até ao reboque que levaria o Jacó. Por seu lado, após a viagem, o Jacó ingressou tranquilo no CAB. Muito curioso, rapidamente descobriu os cantos da casa. Não foi difícil travar amizades, e o Pastor, o cão do CAB, tornou-se rapidamente um companheiro.
Semanas mais tarde, a veterinária Liliana visitou o Jacó. “Já está mais gordinho, nota-se bem! Que diferença! Está mais bonito!”. Como veterinária municipal, Liliana depara-se com alguns casos como este: “Já encontrei cinco casos no meu concelho, e três dos animais vieram para aqui. O CAB é uma das poucas opções para onde encaminhar estes animais de grande porte, uma vez que, por enquanto, não temos um espaço para esse efeito no município. (...) Acho que casos assim acontecem porque há falta de conhecimento das pessoas. Antigamente, os burros eram os pés das pessoas.
Agora cada vez existem menos idosos, que eram quem mais tinha burros e os usava para muitas tarefas, e sabiam como os tratar. (...) Toca-me muito as pessoas não acharem que os animais são da família, porque são animais de trabalho e não vêem o burro como outra coisa. Muitas vezes, não percebem a responsabilidade que é ter um animal de grande porte. O lado positivo é que cada vez há mais interesse em denunciar estes casos. O que eu tento, às vezes, não é tirar os animais, é educar as pessoas para os tratarem melhor. Se se conseguir mudar as condições e a pessoa gosta do animal, é sempre melhor mantê-lo com a família e dar-lhes meios e conhecimentos. Mas nem sempre é possível. Associações como o CAB são essenciais para conseguir dar resposta a estas denúncias.”
Agora cada vez existem menos idosos, que eram quem mais tinha burros e os usava para muitas tarefas, e sabiam como os tratar. (...) Toca-me muito as pessoas não acharem que os animais são da família, porque são animais de trabalho e não vêem o burro como outra coisa. Muitas vezes, não percebem a responsabilidade que é ter um animal de grande porte. O lado positivo é que cada vez há mais interesse em denunciar estes casos. O que eu tento, às vezes, não é tirar os animais, é educar as pessoas para os tratarem melhor. Se se conseguir mudar as condições e a pessoa gosta do animal, é sempre melhor mantê-lo com a família e dar-lhes meios e conhecimentos. Mas nem sempre é possível. Associações como o CAB são essenciais para conseguir dar resposta a estas denúncias.”
Qualquer cidadão pode fazer uma denúncia de um caso de negligência ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR através da Linha SOS Ambiente e Território (808 200 520) ou do formulário online (www.gnr.pt/ambiente.aspx). Sinais de alerta num equídeo, que podem justificar uma intervenção, incluem magreza extrema, falta de acesso a água limpa, feridas expostas, imobilidade prolongada ou membros amarrados.
No CAB, o Jacó encontrou um lugar seguro e confortável, onde poderá permanecer com cuidados até recuperar e, quem sabe, por ainda ser jovem, vir ainda a encontrar uma nova família.